A Formula 1 é perigosa? Claro que sim!

Recentemente dei por mim a pensar no que deveria mudar na F1 para voltar a ser apaixonante. E pensando bem, o problema não está só na
Pirelli, nos pilotos pouco talentosos, nem nos problemas financeiros das equipas… Está na falta de risco.

Após o GP de Monza, vi um vídeo que me trouxe saudades de outros tempos… Não que os atuais sejam maus, mas que me lembraram do quão emocionante era ver uma corrida da perspectiva do piloto.

comparoEra uma comparação entre uma volta em Monza, com Hamilton em 2015 e Montoya (no seu Williams infernal) em 2004. Não que Montoya fosse o mais empolgante daquela época, mas é delicioso ouvir o grito daquele V10 pujante, com o piloto nervoso e determinado nas correcções de direcção para manter o “monstro” a direito. E isto tudo passou-se numa época em que a emoção já ia a “meio-termo”. Recuando outros 14 anos e temos pormenores ainda mais extraordinários do onboard de Senna no GP do Mónaco em 90.
Com o avançar do tempo, vemos os monolugares mais brandos, com menor cavalagem e dotados de ajudas electrónicas que fazem milagres em corrida. É um universo tão controlado que deixa pouca margem ao talento do piloto para decidir quem de facto é o mais rápido.. E tudo derivado da castração imposta pela segurança na modalidade. Nos últimos vinte anos, tivemos três fatalidades sonantes, como Ayrton Senna, Roland Ratzenberger e mais recentemente Jules Bianchi. O falecimento de Senna foi o ponto fraturante da modalidade, levando à criação de medidas de segurança acrescidas nos carros e pistas, para impedir nova tragédia. Como vimos com Bianchi, os factores que influenciam um acidente são tantos, que rapidamente fogem ao nosso controlo. E com certeza não será a aberração de um Safety Car virtual a impedi-los.

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Não pretendo com isto dizer que é necessário morrer alguém para a modalidade ter mais adeptos. 
Mas é preciso saber que o risco está presente e não viver numa redoma de vidro como muitos vivem actualmente. Pergunto-me se muitos pilotos do atual grid tenham real noção dos perigos. Se calhar alguns pensam que “são apenas mais umas voltas e depois vou para casa”. Tal passou-me pela cabeça após a homenagem a Bianchi, quando o jovem Kvyatt evidenciou o real perigo que paira sobre ele e confidenciou o quanto esse acidente afectou a sua condução nas semanas seguintes.

Apesar das grandes marcas não o quererem, carros mais potentes e com menos ajudas electrónicas iriam evidenciar os pilotos mais talentosos. Hoje em dia qualquer “Carlos Sainz” que chegue ao pináculo do desporto motorizado, é bafejado por um rol de tecnologia auxiliar à condução que lhe permite fazer um brilharete frente a qualquer “Alonso” ou “Raikonnen” que por ai ande…

E sejamos realistas: se o objectivo da FIA fosse mesmo reduzir o risco, circuitos como o Mónaco há muito que não fariam parte do calendário. A maioria das curvas não têm escapatórias decentes (ou não as têm de todo…) e qualquer choque em cadeia pode tornar-se numa grande catástrofe muito rápido. E todos nós adoramos ver este GP – faz parte da nossa história.

31Resumindo: a Formula 1 é perigosa? Claro que sim! Todos os desportos motorizados o são. Esta modalidade nasceu da adrenalina provocada por homens em disputa pelo título do “mais rápido”, em condições de segurança poucas ou inexistentes.
Quem diz que o desporto motorizado é uma extravagância do risco e não devia existir, penso que também concordará com a abolição de todas as modalidades de combate… Duma perspectiva racional, é tão mau ter vinte indivíduos a andar duas horas à volta duma pista com risco de acidentes graves ou pior, como andar a ser esmurrado na cabeça durante doze assaltos, sujeito a concussões cranianas graves ou morrer de uma paragem cardio-respiratória com um golpe infeliz no peito.

E sabemos da subjectividade do risco… Que o digam Miklos Feher e todos os outros futebolistas que já morreram em campo, no desporto com a maior estrutura e controlo alguma vez montada neste planeta.

formula-1-14Neste prisma, temos vários graus de risco em desporto de alta competição. E como é “alta” e não só “competição”, o atleta está sujeito a situações perigosas que mesmo sendo devidamente regulamentadas e controladas, podem terminar de forma trágica.

Mas enquanto a paixão existir, estes desportos vão continuar a empolgar-nos, a abrilhantar o nosso mundo e vamos sempre ver estes atletas como os heróis onde procuramos inspiração. E mesmo sendo mortais como nós, estes heróis serão para sempre recordados através da palavra, tal como o meu pai fez comigo e como o farei com os meus filhos. E nesse momento, eles têm a glória eterna.

 

Marcos Gonçalves

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