SIM Racing – O futuro ou um erro?

Ontem dei por mim a ler um artigo de um jornalista brasileiro de desporto motorizado que afirmava com todas as letras que o SIM racing é uma merd*. Não vou reproduzir o artigo, pois é de tão mau gosto que nem merece que se coloque o link, pois quer-me parecer que das duas uma, ou o homem está aborrecido com alguma coisa, ou então foi apenas para apelar à polémica e com isso ganhar mais uns cliques. Mas a questão que ele levantou levou-me a pensar um pouco sobre o SIM Racing e se realmente é uma merd*. Antes de mais é preciso entender o que é o SIM Racing e de onde ele vem.

As corridas de simulação são uma realidade desde os anos 70, quando foram lançados os primeiros jogos que tentavam reproduzir a experiência de condução dos carros de competição. Esse jogos eram chamados jogos arcade que tentavam entreter mais do que simular. Os jogos de simulação começaram com o Indianapolis 500: The Simulation (diz a Wikipédia)o primeiro jogo concebido para tentar recriar com realismo os comportamentos dos carros.

Podíamos estar aqui a falar de inúmeros  jogos que saíram e falar das suas especificidades, mas o objectivo é apenas realçar que o Sim Racing existe já há 30 anos. Antigamente era olhado apenas como um jogo que tentava ser o mais realista possivel.

Nos últimos anos tem-se assistido a um aumento cada vez mais acentuado do número de praticantes por um motivo muito simples: cada vez mais pessoas têm um computador à mão e com isso tem a hipótese de experimentar um simulador de corrida. E também em grande parte porque os simuladores estão cada vez melhores.

 

Lembro-me de jogar NeedForSpeed Underground 2 e usar as paredes dos edifícios para curvar mais rapidamente. Claro que enquanto o jogo não acaba queremos chegar ao fim e gostamos claro, mas vamos crescendo e vamos querendo experimentar o que são carros de corrida a sério. Digamos que deixamos de querer ser um Dominic Toretto rasca e começamos a comunicar com o Senna que há dentro de nós. Começamos a querer saber se as mãos e os pés que nos foram dados pela mãe natureza têm um pingo de talento para a prática do desporto motorizado. Queremos algo que nos mostre como é correr na realidade, sem ter de gastar muito dinheiro e sem receios de batermos contra uma parede.

Pessoalmente as primeiras experiências com simuladores não correram muito bem. Os conceitos como tempos de travagem, por exemplo, eram algo desproporcionados (culpa do NeedForSpeed, juro) e o pé direito funcionava segundo um código binário, cujo o 0 é sem acelerador e o 1 é prego a fundo. Claro que o resultado final era invariavelmente um pião, seguido de um violento acidente contra uma parede (fiquei deprimido a primeira vez que joguei Colin McRae). Mas começar a conduzir ajudou a esclarecer algumas dúvidas e o rendimento foi melhorando, no entanto devo dizer que a primeira experiência a sério de Sim Racing foi no Autódromo Virtual de Vila Real. Fui por culpa do Carlos Mota e fui com algum receio porque como disse um grande senhor “um homem nunca admite duas coisa: que é mau na cama e que é mau condutor”, e não queria fazer figuras tristes, afinal escrevo sobre carros.

 

Mas até que nem correu mal e o vício ficou. E já tivemos até uma equipa a representar o Chicane a participar nos campeonatos que lá decorrem e começamos a entender como funciona o SIM Racing… e a entender o seu potencial.

Descobrimos que há campeonatos que são praticamente profissionais, cujas equipas recebem patrocínios, alguns deles nada maus, e que os participantes levam aquilo mesmo a sério.

A meu ver o potencial é tremendo. E ao contrário do que o tal senhor dizia, o SIM Racing não é uma merda. Ia dizer que pode ser o futuro, mas na realidade já faz parte do presente. Conhecem Norbert Michelisz, piloto Honda no WTCC e que por acaso é um excelente piloto? Pois é, este senhor começou nos simuladores. A GT Academy é famosa por ir buscar os melhores “pilotos” do Gran Turismo e torna-los pilotos (sem aspas) da vida real e com resultados muito positivos. Jann Mardenborough foi um dos vencedores tendo-se tornado piloto e no seu currículo já tem um 3º lugar em LeMans, um 2º lugar no Toyota Racing Series e um 2º lugar na F3 Japonesa… Nada mau para quem estava no sofá a jogar GT. E desse mesmo programa saiu Miguel Faísca que venceu o GT Academy em 2013, Depois disso já participou no Blancpain Series, ELMS e nas 24h do Dubai com bons resultados.

O Sim Racing permite oportunidades únicas, tanto para os jogadores como para as empresas. Muitas corridas são transmitidas online e até passam na MotorsTV e com audiências bem interessantes (eu pessoalmente prefiro mais jogar… para ver já não me diz tanto, mas há montes de pessoas a verem corridas online). Há oportunidades de negócio para quem for inteligente e não tiver preconceitos infundados. E pode haver oportunidades para os jogadores também. Não é de todo descabido que um piloto de SIM Racing seja tão bom e dê tanto nas vistas que até possa ser chamado pelo menos para fazer um teste. Depois a partir daí quem sabe o que pode vir. Lembram-se dos vencedores das 12h de Bathurst em 2015? Todos vindos da GT Academy. 

O Sim Racing é excelente porque permite que algo que nos é tão querido e muitas vezes demasiado distante se torne acessível. Permite que a experiência de ser piloto por 30 minutos seja uma realidade sem que para isso tenha de hipotecar a casa, a família e o cão. As corridas são um meio muito caro e nem todos têm a hipótese de tentar. Eu por 5 euros em 30 minutos descobri que fazer Eau Rouge a fundo não é tão simples quanto parece. Bati duas vezes na saída e o máximo que senti foi a vibração no volante.

O Sim Racing não deve ser olhado de lado pelos puristas pois, embora simule muito bem o comportamento do carro, nada simula a velocidade e as forças G que se sentem na realidade. Os pilotos não vão deixar de ser heróis aos nosso olhos apenas porque podemos imitar o que eles fazem num simulador. Da minha parte, ganhei ainda mais respeito por eles. Aliás, eles próprios beneficiam dessa tecnologia, podendo a partir de casa treinar e conhecer pistas que tenham de enfrentar. Sabemos que Pechito Lopez perdeu umas horas no simulador lá de casa a aprender a pista de Vila Real.

 

E vai permitir também iniciativas muito originais como a última corrida de Formula E em que os pilotos enfrentaram jogadores. Uma iniciativa espectacular que permite uma proximidade nunca antes vista entre pilotos e os fãs.

Quem manda no desporto motorizado tem a tendência de afastar os fãs dos pilotos e dos carros com a desculpa que os pilotos não querem ser incomodados e os mecânicos precisam de espaço e paz para trabalhar. O desporto motorizado sem fãs não é mais que meia dúzia de abastados a derreter pneus. Com fãs, é um dos maiores espectáculos do mundo. Provavelmente o Sim Racing, para além de ter um potencial de negócio muito apelativo é, acima de tudo, uma porta que permite aos fãs sentirem-se mais próximos da sua paixão. Não me digam que isso não é espectacular!

 

Fábio Mendes

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2 pensamentos sobre “SIM Racing – O futuro ou um erro?

  1. Como simracer dos que leva este hobby mais a serio que devia só tenho que agradecer este artigo… leve e de facil leitura que aborda varios pontos importantes do simracing desde a historia à evolução que tem como expoente máximo o recente evento da formula E em las vegas!
    Faltou apenas falar dos investimentos que podem começar em poucas dezenas de euros e chegar aos muitos milhares de euros assim de como os mais recentes equipamentos que simulam as forças G’s e a realidade virtual.
    Tive a felicidade de poder participar na recriação da rampa de sta Luzia (Viana do Castelo) e fazer um trackday no circuito vasco sameiro e apesar de ambas as pistas terem sido desenhadas por amadores (e não com scaners lazer como as mais usadas e lançadas pelas editoras dos simuladores que recriam exactamente todos os pormenores das pistas) para os simuladores posso assegurar que os comportamentos dos carros estão MUITO proximos da realidade!
    Deixo um video meu da rampa de sta luzia.
    Cumprimentos e mais uma vez obrigado pelo belo artigo, espero que pelo menos disperte curiosidade de alguns e os leve a experimentar nos varios autodromos virtuais espalhados de norte a sul!

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