Na primeira pessoa – Monte Carlo: uma tragédia anunciada!

 

Iniciou-se o Campeonato do Mundo de Ralis, com Monte Carlo como cenário perfeito para o recomeço da competição. Como é tradição, a prova começa sempre com as míticas noites “do Monte”, um cenário fantástico, aliando uma moldura humana fantástica, com algum espectáculo “pirotécnico privado”, fogueiras e grande animação ao longos dos quilómetros a correr pelos pilotos. O espectáculo fica completo com muita neve, que este ano não faltou à chamada numa das mais “geladas” provas dos últimos anos.

A verdade é que atrás mencionei apenas o lado bom da “coisa”. Monte Carlo é o meu sonho e ver ao vivo este rally é algo que desejo há muito e sei que um dia vou lá parar. Mas aquilo que lá se passa é uma desorganização dentro de uma grande organização. É inaceitável que ao longo de anos e anos se veja o público praticamente dentro dos troços, a correr atrás dos carros ao passarem, em zonas de neve. Gente e mais gente mesmo ao lado das máquinas enquanto os pilotos lutam em busca dos melhores tempos.

Dentro desses carros vão competidores, profissionais que lutam por objectivos, que arriscam, que sabem o que fazem, mas que também erram, como qualquer humano erra. Em Monte Carlo correm-se riscos em demasia, o publico exagera muito e não tal não é novidade. Lamentamos uma morte que assombrou a prova, mas essa morte já vinha a ser anunciada há muito tempo, tal o desrespeito do público para com a modalidade, para com os pilotos e mais do que isso, pelas próprias vidas.

Viver um rally de forma intensa não é estar dentro da estrada, não é colocar-me na melhor posição para “aquela melhor foto”, não é espreitar no meio do troço do troço se o “carro já vem aí” e sair no exato momento em que ele vem a passar por nós! Não! Isso é somente estragar este desporto fantástico. Isso é desrespeitar todos aqueles que gostam verdadeiramente de ralis e que esperam horas e horas para ver os seus ídolos passar, em segurança e que muitas vezes, tal como este ano, vêem um troço cancelado por falta de condições devido à má colocação do público. Nada mais irrita um adepto do que ver um troço cancelado. Eu por mim falo… Odeio!

Amar os ralis é saber onde se está, é saber que se algo correr mal eu jamais sofrerei consequências com isso, é acreditar sempre que algo pode correr mal e colocar-me sempre longe desse perigo. E depois disso tudo desfrutar deste grande espectáculo, conviver, falar com “o vizinho do lado”, vibrar com o roncar dos motores, beber umas “jolas” e chegar a casa com muitas histórias para contar, carregadas de sensações positivas de uma grande paixão!

O que aconteceu este ano em Monte Carlo era o que já se estava há espera há muito tempo. Quem vê ralis sabe disso e ano após ano, em pleno século XXI ainda se continua a ver provas assim. Falamos agora deste caso em especifico, porque foi o mais recente, mas não seria preciso um grande exercício de memoria para dar mais exemplos de acidentes a envolver público mal colocado, como ainda em 2015 na Argentina exemplo, com Paddon de novo, (infeliz coincidência) a atropelar um mar de gente colocado do lado de fora de uma curva! Incrível!

De quem é a culpa? Organização? Publico não sensibilizado para os perigos? Falta de informação? Falta de zonas especificas e preparadas para receber os espectadores? Não há zonas espectáculo para o publico? Não há zonas interditas ao publico? Não há polícia a impedir a “invasão” dos troços? Não há seguranças ou voluntários a informar onde se deve ou não estar? Será que isso só existe em Portugal? Enfim!

A verdade é uma, este rally é o mais mítico de todo o calendário, mas no aspecto segurança “falha como as notas de 100€ no meu bolso”! Não é de hoje a má fama, mas o que se via deixava antecipar um desfecho assim.

Com isto meus caros, tenho a dizer-vos que tenho muito orgulho no nosso rally, seja ele a sul ou a norte, em termos de organização, segurança e publico bem colocado. É sem dúvida um exemplo para todos as outras provas do mundial. Estive em vários sítios nos últimos dois anos do Rally de Portugal e como sempre, existe sempre algo a melhorar, mas de facto estamos um passo à frente de todos os outros. Mas é assim que tem de o ser sempre e por várias razões. Primeiro porque a vida não se brinca nunca, sendo nosso dever, proteger “a nossa pele”. Segundo, proteger o nosso rally. Sejamos realistas, se algo do género acontecesse em Portugal…caia o “Carmo e a Trindade” e se calhar ficávamos sem rally de novo. A verdade é que o nosso rali foi deslocado para outras paragens por outros motivos sem ser a falta de segurança. A politica e o dinheiro foram as verdadeiras razões. Mas se facilitarmos, estaremos a dar trunfos a quem manda para, de forma habilidosa voltar a usar o mesmo truque. Não o podemos fazer! 

Amigos, protejam o que é nosso, porque ele é nosso por direito próprio, porque nós amamos os ralis de uma forma que não se vê em mais lado nenhum. Os tempos são outros, temos de nos adaptar às regras do jogo pois elas são feitas a pensar apenas na nossa segurança.

Esperemos não voltar a ter que dar notícias assim, simplesmente não queremos.

Vivam esta paixão em segurança! Vemo-nos por ai, numa zona espectáculo qualquer, como sempre se diz por cá, “perto das emoções, longe do perigo”!

Na primeira pessoa, Carlos Mota!

 

3 pensamentos sobre “Na primeira pessoa – Monte Carlo: uma tragédia anunciada!

  1. Sr Carlos Mota …. palavras suas “rally que ainda um dia lá vou” aí está o problema… pessoas que falam sem terem visitado conhecendo a realidade no local. Todas as suas perguntas relativamente a zonas de público ou não estariam esclarecidas e teria consciência de que não é fácil escrever sem conhecer a realidade. Quanto ao falecido…. ao contrário do que tentam mostrar sabemos que ainda é fácil acompanhar os rally’s sem moderação da organização… basta estudar um pouc4o e entrar o dia antes pelo meio do mato.
    O homem foi mais que avisado, infelizmente só foi para aquele local depois dos “zeros” passarem e Tornou-se impossível obrigá-lo a sair de lá.
    Antes de apontar-mos o dedo a uma organização brutal (quase que parece um texto invejoso) temos de apontar o dedo sim a nós próprios que temos de ser mais conscientes e não nos expor-mos ao perigo.

    Cumprimentos e espero para o ano o encontrar em Monte Carlo

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    1. Caro Luís. Antes de mais agradecemos o seu comentário! Quanto ao texto, embora apontemos o dedo à organização, admitimos que é difícil controlar tanta gente. Não há a mínima inveja pois admiramos os homens e mulheres que perdem muito tempo da sua vida a organizar uma prova espectacular. Mas reconhecerá que Monte Carlo ainda é palco de inúmeros “fãs” que insistem em viver as corridas demasiado perto. E o texto é essencialmente focado nesse ponto… alertar as pessoas para que não o façam e elogiar o que se faz em Portugal onde as zonas estão muito bem delimitadas e onde a vigilância é bem apertada. Longe de nós apontar a organização como a principal culpada.

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