F1 – Gilles Villeneuve: O homem que só sabia conduzir no limite

Nem sempre o talento é recompensado com os louros merecidos. Nem sempre a determinação e a coragem acabam em vitória. Nem sempre a vida parece justa. Mas no final a justiça aparece de uma forma ou outra.

A história de Villeneuve é um pouco assim. Um talento enorme que não conseguiu reflectir esse talento em títulos. Mas que a justiça da vida e do desporto fez questão de compensar com um lugar na história do desporto motorizado.

Joseph Gilles Henri Villeneuve, nascido a 18 de Janeiro de 1950, em  Richelieu, uma pequena cidade da parte  francófona do Canadá.

Embora tenha começado em correr num Ford Mustang em 1967, passando de seguida para a Fórmula Ford regional, Villeneuve começou a ganhar nome nas corridas de snowmobile. Foi aí que treinou a sua técnica e ganhou dinheiro para financiar os seus carros.

Deu entrada na “Formula Atlantic”, onde ganhou a primeira corrida em 1975, sendo campeão em 76 e 77.

 

Mas foi em 76 que as portas da F1 se abriram para o canadiano. Numa corrida de demonstração da “Formula Atlantic”, para a qual foram convidados várias estrelas da F1, Villeneuve fez um brilharete batendo toda a concorrência e impressionou James Hunt, que lhe arranjou um contrato de 3 corridas na McLaren para 77.

Nas 3 corridas que fez pela McLaren, embora os resultados não tenham sido os melhores, começou a impressionar alguns membros do grande circo. Não conseguiu no entanto convencer o director da McLaren, que não lhe renovou o contrato.

A Ferrari procurava um substituto para Niki Lauda que sairia no final do ano. Enzo Ferrari escolheu Gilles Villeneuve como piloto, mesmo depois de um teste na pista de Fiorano,com um mau desempenho por parte do canadiano. Ainda assim conseguiu um contrato para as 2 últimas corridas do ano e para a época de 1978.

 

As suas duas primeiras corridas pela Ferrari não foram nada de especial, com desempenhos que não demonstravam o seu talento. Na 2ª corrida num acidente, em que o seu carro chocou com um Tyrrell e voou literalmente, aterrando em cima de alguns espectadores que se encontravam numa zona proibida, provocando a morte de uma pessoa.

Em 1978, o início da época não foi nada promissor para Gilles, havendo mesmo vozes que pediam que saísse da equipa mas Enzo Ferrari manteve-o e ele começou a melhorar gradualmente até ao último GP no Canadá onde venceu a prova.

1979 foi o seu melhor ano. Acabou em 2º mas poderia perfeitamente ter ganho nesse ano. Mas a equipa deu preferência ao seu companheiro, Jody Scheckter. Foi nesse ano que se deu a famosa luta entre Villeneuve e Arnoux no GP de França considerada por muitos o momento mais alto da F1 e  a prova do talento de Gilles que venceu o duelo. Arnoux disse que não se importou de perder pois foi perante o melhor piloto do mundo.

 

A época de 1980 foi desastrosa para a Ferrari com Villeneuve a fazer apenas 6 pontos e o seu companheiro de equipa 2. O Ferrari estava desactualizado em relação aos outros carros tendo apenas parcialmente o “efeito solo”.

Em 1981 a Ferrari introduziu o seu 1º motor turbo, fazendo do carro muito rápido em recta. Mas o carro era muito complicado de conduzir, muito instável. Harvey Postlethwaite, que foi contratado para melhorar o carro desse ano, afirmou que este tinha literalmente ¼  do downforce dos Brabham e dos Williams, para além de problemas de atraso na resposta do acelerador. O facto de conseguir ter ganho 2 corridas em circuitos estreitos como eram Monaco e Jarama, era um claro indicador que Gilles estava num patamar aparte dos demais. Segundo Harvey, o carro era francamente mau e só graças a um piloto de grande nível estes resultados seriam possíveis.

82 mostrava-se como um ano de mudança positiva. Embora as duas primeiras corridas não tenham corrido de feição, Villeneuve tinha condições para chegar ao título e era um dos favoritos. No GP de São Marino, o seu colega de equipa, que nessa altura já era Pironi, desrespeitou uma ordem de equipa, ultrapassando Villeneuve quando este liderava e geria a corrida, poupando combustível. O canadiano indignado com o seu companheiro, jurou nunca mais lhe dirigir a palavra.

2 semanas depois deste episódio, Villeneuve falecia na pista de Zolder (Bélgica). Nas últimas voltas de qualificação, o seu Ferrari embateu num March, que vinha a fazer a volta de entrada nas boxes e seguia mais lento. O Ferrari levantou voo e projectou o piloto para a parede de protecção. Foi encontrado sem respirar sendo declarado oficialmente morto horas depois.

Os números são injustos com o talento do canadiano. É certo que só venceu 6 vezes mas o que mostrava em pista era muito mais que isso. Uma força de vencer, uma capacidade de luta, uma vontade de ir cada vez mais rápido e uma espectacularidade que lhe rendeu muitos fãs. Muitos dirão que era vontade a mais. Que foi esse estilo, sempre agressivo, sempre no máximo que fez que não ganhasse mais vezes. Também teve o azar de conduzir carros que quase sempre eram muito inferiores aos dos rivais. Mauro Forghieri, que desenhou vários carros para a Ferrari afirmou que Villeneuve era capaz de colocar carros em posições onde não mereceriam estar.

Prost na altura disse que Gilles foi o “último grande piloto. Nós somos apenas bons profissionais”.

“Nenhum ser humano é capaz de fazer milagres, mas Gilles faz-nos desconfiar disso” disse Jaques Laffite.

Para a história fica o talento de um piloto que nunca conseguiu ganhar o merecido título, talvez por ter sempre conduzido no limite. E naquela altura o limite era muito estreito, a margem de erro era mínima e o erro pagava-se muito caro. Ainda assim o canadiano nunca deixou de acelerar. Para além disso será sempre lembrado como um homem de bom carácter, simpático e embora muito competitivo, sempre leal com os adversários. Gilles Villneuve será sempre um dos grandes nomes da F1.

Villeneuve em números:

67 GP
6 vitórias

2 poles

8 melhores voltas

13 pódios

15194 km corridos

2251km na liderança

1978: 9º

1979: 2º

1980: 14º

1981: 7º

 

 

 

Fábio Mendes

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