F1 – Alain Prost: A arte do Professor

Este texto surge numa altura em que não existe nenhum feito do francês que deva ser celebrado e nem se deve a uma repentina vontade de falar de um piloto que me é muito querido.

Lamento informar os fãs do Professor, mas deste lado está um “Sennista” convicto e que ainda sente, passado tantos anos, uma animosidade inicial quando vê o francês, algo que depressa se dissipa mas que demonstra bem que naqueles domingos em que o “clã Prost” se opunha ao “clã Senna”, qual claques de futebol, eu estava do lado da claque do homem do capacete amarelo.

Mas numa das várias deambulações pelas ondas da web, deparei-me com um blog todo catita de um fulano que para além de ser um fã de F1, usa os seus conhecimentos matemáticos e estatísticos, para analisar temas pertinentes da F1. Um destes textos questionava se os pilotos têm influência sobre a fiabilidade dos carros.

Segundo a dita análise, o nº de desistências por falhas mecânicas caiu significativamente a partir do início da década de 2000. Contrariamente, foram as épocas nos meados dos anos 60 e 80 que apresentaram o maior nº de desistências atingindo um pico de 60%. Claro que no presente, os pilotos têm pouca influência sobre a fiabilidade, que é escrupulosamente testada nos laboratórios das marcas… talvez não tanto na Ferrari mas isso é outra história.

Segundo a mesma análise, 5 a 20% das desistências foram originadas por falhas dos pilotos enquanto 10 a 50% das desistências foram originadas por falhas mecânicas. O dado que mais me espantou foi o seguinte: de todos os pilotos avaliados, apenas um demonstrou ter influência sobre a fiabilidade da sua máquina… Alain Prost. Em 199 GP, Prost teve 41 desistências por falhas mecânicas contra 73 dos seus colegas de equipa. Se nos restantes casos o nº de desistências se deve ao acaso, o estudo estatístico mostra que Prost tinha uma influência positiva sobre a fiabilidade dos carros.

Poderá ser estranho chegar a esta conclusão se recordarmos o início de carreira na McLaren e na Renault que culminou em 83 com um vice-campeonato que poderia facilmente ter sido um titulo conquistado, com Piquet a levar a melhor. Mas a fama de Professor e de não ultrapassar os limites é intemporal e valeu-lhe algumas alcunhas menos positivas por parte dos fãs que sempre preferiram um piloto com mais coração do que cabeça.

Mas Prost  ficou famoso por ser ultra-metódico e sempre teve um nível de disciplina mental espantoso. Na escola de karts onde andou, conta-se que já desde o início não fazia mais do que era necessário para estar entre os mais rápidos, para depois em corrida surpreender todos com um andamento superior, para o qual ninguém tinha resposta pela surpresa que provocava.

Um dos episódios que encontrei sobre a rivalidade Prost vs Senna e que demonstra bem a diferença entre ambos remonta a 1988. No GP de Monza já era claro que o campeonato seria para um dos pilotos da McLaren e como tal, tinham liberdade para correr em pista sem limitações, pois a concorrência estava bem longe. Durante a corrida que era liderada por Senna, Prost deparou-se com um problema no motor que certamente seria terminal. O que o francês fez, ao concluir que não chegaria ao fim da corrida, foi aumentar o ritmo e espicaçar Senna, fazendo voltas rápidas atrás de voltas rápidas. Senna, na sua sede de mostrar o seu superior talento, respondeu-lhe à letra e começou a puxar também, caindo na armadilha. À 30ª volta o motor de Prost cedeu e a 35ª abandonou a corrida mas Senna já tinha abusado do combustível e a partir da volta 43, começou a receber ordens para diminuir os consumos, diminuindo a pressão da sobrealimentação, algo que não agradou ao motor. Senna começou a perder tempo para Berger, que se aproximava rapidamente e para concluir o feitiço de Prost, Senna tem um acidente com o retardatário Schlesser, abandonado também a prova. Prost não perdeu pontos para o seu colega de equipa nessa tarde.

Para além da capacidade de engendrar um plano destes a mais de 260km/h, a dedicação, o trabalho meticuloso na afinação das suas máquinas ( um F1 bem afinado é meio caminho feito para vencer) e na análise dos dados durante o fim de semana eram trunfos pouco reconhecidos por fãs mas que renderam números impressionantes:

Em 13 épocas apenas ficou fora do top 5 por 1 vez no ano de estreia, foi campeão 4 vezes e vice-campeão outras 4. Conquistou 51 vitórias em 199 GP, 106 pódios, 33 poles e 41 voltas mais rápidas.

A idade permite-nos ver o passado com mais clareza e permite-me despir a “camisola Senna” e apreciar um dos grandes pilotos da F1, ao jeito dos aclamados Jim Clarck e Niki Lauda. Um piloto pouco espectacular, cujo  lema era “risco mínimo” e com uma postura que pouco agradava aos fãs da F1. Que foi capaz de ultrapassar um início de carreira menos positivo, um campeonato perdido por 0.5 pontos, a rivalidade com Senna, levar a Ferrari de então à discussão do título contra a poderosa McLaren, parar e regressar para terminar com o tetra. Mas foi assim que conseguiu construir uma das carreiras mais bem-sucedidas da F1, o primeiro campeão francês, ainda sem um substituto à altura.

Fontes:
https://f1metrics.wordpress.com
http://www.grandprixhistory.org
http://www.statsf1.com/

Fábio Mendes

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