Eduardo Freitas: 20 minutos com o Chefe

Eduardo Freitas é mais um dos nomes portugueses de grande relevo no desporto motorizado mundial. É director de corrida do FIA WEC, é um dos nomes mais respeitados do mundo das corridas e esteve em Vila Real numa acção de Formação organizada pela FPAK e pelo CAVR.

Já longe vão os tempos em que  fazia arranjos de motores a dois tempos para motorizadas.  A 24 de setembro de 1979 começou como aprendiz, desmontando a pista de karting do Estoril. Foi comissário de pista e foi subindo gradualmente na hierarquia até chegar a chefe do Colégio de Comissários, até que em 2002 recebeu o convite para o FIA GT. O resto é história, tendo passado pelo ETCC, WTCC até chegar ao WEC.

O primeiro impacto que tivemos do Sr. Freitas é típico de quem acaba de encontrar uma pessoa com um nível de responsabilidade muito grande. Eduardo Freitas tem mesmo”pinta” de chefe.

Mas começamos a conversa, e como estávamos num evento de formação para comissários, quisemos saber como se comparam os nossos comissários com os das pistas além fronteiras. O diagnóstico é bem positivo.

“Já trabalhei em circuitos onde é simples de trabalhar e os comissários fazem um trabalho excelente. No sábado só fazem asneira, no domingo corre tudo às mil maravilhas. Em Portugal trabalha-se bem. Felizmente temos gente muito apaixonada, seja em ralis, seja em circuitos ou rampas. A qualidade do trabalho feito em Portugal está acima de qualquer dúvida e não teria a mínima dificuldade em escolher um grupo de pessoas e levá-los a qualquer circuito do mundo.”

Num passado recente, lembramo-nos de um vídeo numa rampa em que o público presente começou a berrar impropérios aos comissários por estarem a demorar a mostrar bandeiras vermelhas. Falar de fora, mais ainda quando não se percebe nada do assunto, é fácil mas não podemos esquecer que a maioria (senão mesmo todos) os homens e mulheres que estão nos postos de comissários são amadores que sacrificam tempo com a familia ou amigos, para estarem perto do que gostam com a sua “outra” familia. Bem porreiro, pensarão alguns. Já corremos o circuito de Vila Real com temperaturas altíssimas e asseguramos que por muito perto que os carros passem, ficar de sol a sol, a derreter enquanto o resto da malta está a sombra ou bebe umas fresquinho, não é assim tão agradável quanto isso. Eduardo Freitas disse-nos que é este espírito que é essencial nas corridas.

“O amadorismo é transversal e existe a nível mundial. A própria comissão que foi criada pela entidade federativa máxima é uma comissão de oficiais e voluntários, porque sabemos que grande parte desta massa humana trabalha em forma de voluntariado puro e duro.”

Muitas vezes o ultra profissionalismo do desporto motorizado choca com o amadorismo dos comissários de pista. E se muitas vezes a palavra amadorismo pode ser usada de forma negativa, no caso dos comissários refere-se apenas a sua condição de não-profissional, pois a qualidade do trabalho tem de ser inevitavelmente grande. E Eduardo Freitas é um pouco como o “óleo” que faz estas duas engrenagens muito diferentes e complexas, trabalharem em conjunto.

“Fazer a ligação entre estas duas realidades é complexo. Muito desafiante, mas muito complexo. Fará por certo confusão às grandes equipas ver um nível de profissionalismo extremo de um lado e do outro termos amadores que dispensam o seu tempo em prol da sua paixão. É assim que o sistema funciona, é um dos charmes deste desporto e deste sistema.”

Profissionalizar os comissários de pista seria uma tarefa de extrema dificuldade para a grande maioria das pistas do mundo, mas é esta junção de duas formas de estar completamente diferentes que desafiam e dão gozo a Eduardo Freitas.

“Estas duas realidades existem e eu estou exactamente no meio das duas. Ambas têm uma forma muito própria de serem tratadas e nem sempre junta-las resulta bem, porque como são realidades diferentes  pode haver dificuldade de entendimentos de parte a parte. É muito giro trabalhar com isto, cada prova que se faz é sempre um desafio interessante.”

E já que estávamos a falar com o maestro, quisemos saber como é liderar a orquestra num traçado com a exigência de Vila Real. E como Freitas parece ser um homem que gosta de desafios, os citadinos são do seu agrado, afinal a exigência é muito maior.

Num traçado urbano passa-se tudo dentro de pista, com a agravante de que lido com provas de longa duração no WEC e aqui em Vila Real são provas de 25 minutos. É tudo no fio da navalha. O maestro disto tem de ter uma sensibilidade muito diferente tem de conhecer muito bem o terreno, conhecer as aberturas dos rails, saber avaliar pelas câmaras a situação e o local, pois se nas imagens parecem ser apenas 10 metros de distância na realidade podem ser 150.”

Infelizmente, as corridas são recheadas de perigos e o desfecho final não é o que se pretende e o director da corrida é uma das pessoas que mais sofre com estas situações. Eduardo Freitas sabe bem da responsabilidade que tem e não facilita minimamente. Quando falou das situações menos boas que viveu, sentimos que é algo que ainda o afecta.

“As vezes não corre tão bem quanto gostaríamos. Infelizmente, e é triste para nós, chegarmos ao fim da prova e nem toda a gente vai para a casa. Isso sim doí muito e já tive duas na minha carreira. É difícil e demora tempo a recuperar e na última vez estive em vias de abandonar, pois não é para isto que cá ando.”

Nesta altura, confirmamos as nossas suspeitas. O Maestro é uma pessoa exigente, perfeccionista. Que exige que tudo esteja perfeito. No ano passado Tom Coronel pregou um susto valente aos bombeiros presentes. Foi motivo de piada por ter corrido muito bem, mas estávamos perante uma pessoa que não achou a mínima piada aquilo.

“Sou conhecido por ser um tipo chato, vou descobrir parafusos onde ninguém os vê. Não ter visto a falta de dois blocos de algumas toneladas é algo que ainda me está atravessado. Foi algo que me incomodou muito durante muito tempo. As condições que levaram aquilo a acontecer estão justificadas perante as entidades oficiais e já estão tomadas medidas para que tal não aconteça mais. Mas o facto é que isso aconteceu e não consigo voltar atrás. Ali houve uma falha de segurança e isso é imperdoável, seja qual for o motivo que está por trás do sucedido.”

O desporto motorizado está numa fase de mudança em que os eléctricos começam a ganhar cada vez mais relevância, o que trará outros desafios para os responsáveis pelo decorrer das provas:

“Os eléctricos trazem outro tipo de problemas. Hoje lidamos com carros turbinados e quando um carro destes bate, o factor fogo está sempre presente. Os eléctricos têm outro problema que é a questão dos choques eléctricos. A mudança para os eléctricos está também a mudar a forma de actuação em pista. Se isto é realmente o futuro ou se trata apenas de uma fase de transição, não faço a mínima ideia. Acredito que a motricidade será eléctrica, agora a forma como a electricidade irá lá parar é que não lhe sei dizer.

E quanto a pergunta da moda… motores de combustão vs motores eléctricos?

“É preciso aprender a gostar dos eléctricos e desta nova forma de ver o desporto motorizado. Claro que para os mais conservadores, se vai perder alguma da alma das corridas, como aconteceu quando a F1 deixou de fazer tanto barulho. Agora se forem ver as velocidades dos carros não têm nada a ver e os carros actuais são muito mais rápidos. No fundo, teremos de nos adaptar as coisas mas isso faz parte da vida.”

A conversa com Eduardo Freitas foi curta… muito curta pois ficamos com a clara sensação que tinha muitas mais histórias deliciosas para nos contar. Ficamos também com a sensação que por detrás daquele ar de chefe mandão, está uma pessoa muito acessível, bem disposta, e paciente o suficiente para explicar até o mais básico a quem for necessário. Parece ser aquele chefe que tem sempre uma palavra de entusiasmo e de força, mas que não queremos deixar ficar mal. Freitas tem uma aura que é difícil de descrever mas que se entende bem. Foram apenas 20 minutos de conversa mas foi o suficiente.

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