Roborace: o futuro é já amanhã!

O Festival de Goodwood é uma das maravilhas do mundo. A quantidade de máquinas, de personalidades, de público que ali se junta, dá mesmo vontade de ir ver de perto um dos mais prestigiantes eventos do  mundo automóvel (é mais um para a extensa lista de desejos).

Claro que o próprio festival é barómetro da industria automóvel e das suas tendências e este ano claramente ficou marcado pelos eléctricos e pelos carros autónomos. E aí, começamos a torcer um pouco o nariz.

Quanto aos eléctricos, cada vez mais vão ganhando força e mostrando a sua capacidade. Estamos claramente numa era de mudança e a passagem dos motores de combustão para motores eléctricos é o equivalente à mudança do cavalo para os motores. Nesta altura há ainda muitas dúvidas, mas talvez no futuro cheguemos a conclusão quer era realmente a escolha óbvia. E quem sabe, com Jay Leno disse, o eléctrico vai salvar o motor de combustão. E por isso, ter visto o Romain Dumas esmagar o recorde da rampa não me causou surpresa… assim como não causou grande entusiasmo, mas o mundo muda todos os dias e quem não o acompanha está tramado.

Mas a parte dos carros autonomos é que me deixou mais triste. A condução autónoma começa também a ser cada vez mais falada e para dá agora os primeiros passos. Para mim a condução autónoma é um pouco como os aviões… é possivel fazerem o trajecto todo sozinhos, mas o piloto está lá para tratar das partes complicadas e tomar a decisão certo no momento certo (afinal que iria num avião sem piloto?). Nas estradas deveria ser o mesmo. Condução autonoma nas auto-estradas? Sem problema, até dá jeito para relaxar um pouco. Em vias congestionadas e estradas dificeis é melhor o homem ter mão na máquina. São sistemas de apoio para o homem que por vezes tem de tomar decisões, que contrariam a lógica para um bem maior. As máquinas ainda não são capazes de o fazer.

Foi por isso que vi com um sorriso o Ford Mustang autónomo a subir Goodwood, claramente em modo “octogenário que exagerou na bebida”. Na verdade foi mais que um sorriso foram umas gargalhadas valentes, principalmente quando o carro foi contra os fardos de palha. Fica no ar a dúvida se as pessoas que iam dentro do carro foram lá como prémio ou castigo.

Mas depois vi a subida do Robot Racer e dei por mim a pensar se aquilo é o futuro das corridas. À primeira vista o carro até tem umas linhas agradáveis e agressivas, como um bom carro de corrida deve ter. Mas falta-lhe algo fundamental… o piloto. As corridas sempre foram desde o início o homem e a máquina, em conjunto, em busca do melhor resultado. O piloto ir buscar aquele décimo que falta para a pole. A máquina e a sua fantástica tecnologia, que abrem as portas ao sucesso. Tira-se o piloto da equação e um dos desportos mais entusiasmantes do mundo perde a alma. Para fazer uma curva a fundo, deixa de ser preciso coragem e basta ter o algoritmo certo. A melhor trajectoria é cumprida escrupulosamente, sem erros. A volta de honra é dada sem que se possa celebrar o piloto.

A máquina, em termos tecnológicos é interessante, claro. O seu desenho foi pensado para maximizar o apoio aerodinâmico, tem 1350 Kg de peso, quatro motores eléctricos, cuja potência combinada chega aos 500 cv, sendo capaz de atingir os 300km/h. Para “navegar” usa um sistema complexo de radares e sensores opticos e de ultrasons que vão lendo a pista.

 

 

Colocar tudo isto a funcionar deve ser um desafio tremendo e a equipa que está a desenvolver este trabalho merece todo o reconhecimento. A tecnologia colocada neste projecto poderá ser importante para o futuro e isso não pode ser menosprezado.

Corridas autónomas vs Corridas “tradicionais”

Retrirar os pilotos às corridas é retirar o elemento diferenciador… a estrela que faz o impossível ou o piloto que comete um erro. É nessa incerteza e na procura de novos heróis que assenta a paixão pelas corridas. Em cada piloto há uma história de sucesso, há falhas, há superação e há talento. Claro que nos autónomos haverá também essa componente mas não será tão visvível, nem tão apetecível. E há que tirar o chapéu aos engenheiros que conseguem esta proesa tecnológica. Mas não vejo a médio ou longo prazo este tipo de veículo a dar competições que realmente apaixonem os fãs.

A F1 deu um exemplo do que são as corridas em Hockenheim: um piloto que tem o fim de semana arruinado no sábado e que vence no domingo; um piloto que tem a vitória na mão e que num pequeno erro deita tudo a perder. O podermos associar o erro, o sucesso, o talento, a decisão corajosa a um piloto é que torna o automobilismo em algo que apaixonante. E é talvez o único elemento que se mantêm inalterado desde início. Os roboracers terão certamente o seu espaço e merecerão a admiração pela tecnologia. Mas as corridas apaixonantes serão aquelas em que o factor humano está bem presente.

 

Se achamos o roborace uma parvoíce? Longe disso, é um esforo tecnológico muito interessante, que pode ser muito útil para os veículos do futuro. Se achamos que devem competir? Não vemos mal nisso pois é em ambiente de competição que se encontram as melhores soluções e os desenvolvimentos acontecem mais rápidamente. Se achamos que podem vir a suplantar as corridas “convencionais”. Não! As corridas podem e devem ter tecnologia, mas não podem perder o aspecto do entretenimento. Os pilotos são um pouco como os gladiadores dos passado e esses homens exercem ainda um fascínio grande no público. Retirar isso, retira a própria essencia das corridas e do desporto em geral. Se calhar virá um tempo que as pessoas preferirão ver corridas de autónomos… mas sorte a nossa, esse tempo deve estar ainda longe.

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