WRX: O sonho acabou?

Um misto de surpresa, indignação e resignação. Foi assim que recebemos a notícia da saída de Montalegre do calendário do WRX. Depois de quatro anos bem sucedidos e com provas dadas, a organização portuguesa ficou de queixo caído com a decisão… e os fãs também.

Para nós, que fomos a primeira vez ver ao vivo o WRX este ano, só podemos olhar para esta notícia com muita pena. Fomos a Montalegre sem expectativas, embora soubessemos que quem foi, só disse maravilhas, tanto da competição como da organização. Mas fomos com a mente aberta para aproveitar melhor a experiência. E saímos de lá conquistados. Somos malta das pistas e o conceito de ralicross para nós foi algo novo de ver ao vivo. Na TV as corridas são emocioinantes e imprevisiveis mas ao vivo podemos sentir a força das máquinas, algo que a TV nunca conseguirá transmitir.

Ficamos surpreendidos com a o nível que as equipas apresentaram, com a qualidade e a tecnologia das máquinas, a organização das estruturas e a forma como o campeonato cresceu. Talvez tenha sido esse mesmo o problema… o campeonato cresceu em demasia para o que as marcas estavam dispostas a gastar e agora vê-se uma debandada. Mas o que não nos surpreendeu foi a qualidade da organização nacional. Conhecemos algumas pessoas que trabalharam para o evento e sabiamos que a dedicação e a competência estavam garantidas. E falando com as pessoas sentimos genuinamente que havia a sensação de dever cumprido e apesar serem necessárias melhorias nas infraestruturas, vimos que todos estavam com o sentimento que o muito trabalho feito teria o devido retorno.

Dai a grande surpresa quando soubemos ontem que a prova não passaria em 2019 em Montalegre. Daí a indignação por perceber a injustiça da decisão e a resignação por ver os países que entraram no calendário com muito mais vontade de gastar dinheiro neste tipo de eventos que o nosso. Perguntamos na altura se receavam que o crescente interesse da competição levasse o campeoanto para pistas com mais argumentos (mais cifrões) mas a organização nacional sempre se escudou no excelente trabalho feito e na satisfação dos promotores para justificarem a confiança na manutenção da prova. Mas ontem tivemos mais uma prova que o dinheiro por vezes fala alto demais.

As declarações do presidente da Câmara de Montalegre não deixaram dúvidas:

“Depois da renovação do contrato por mais cinco anos é com surpresa que vemos Montalegre fora do calendário do WRX para 2019. A justificação por parte das entidades responsáveis prende-se com o facto de não terem sido feitas em tempo útil as obras na ‘torre”‘ que albergaria um novo centro médico, assim como um media center , entre outras valências necessárias para uma prova de um mundial FIA.  Ficou acordado em 2017 que a obra seria concluída em abril de 2018, mas o rigor do inverno e as sucessivas alterações ao projecto que a FIA foi pedindo, atrasaram o processo. É esse  facto que serve agora de justificação para a retirada de Montalegre do campeonato. Ainda no mês passado enviámos uma nova proposta de projecto à FIA, que veio como novos pedidos de alterações…”

E claro está quando o autarca admitiu que, quando soube da saída da Alemanha (que já recebeu duas rondas) e os sucessivos adiamentos começaram a parecer estranhos, fomos obrigados a encolher os ombros em sinal de resignação. Afinal outros interesses parecem ter estado na raíz da decisão.

Já o CAVR mantém a sua posição e colocou-se ao lado do município como o comunicado lançado hoje o afirma:

“Foi com surpresa e tristeza que o Clube Automóvel de Vila Real tomou conhecimento da saída da prova de Montalegre do calendário do campeonato do mundo FIA de Ralicross. Desde início que estivemos presentes com o município de Montalegre e em conjunto, fizemos este evento crescer cada vez mais.

É com grande orgulho que o CAVR olha para este trajeto, que começou bem antes de 2014, mas que talvez tenha tido aí o seu ponto alto, com a estreia de um campeonato mundial desta envergadura em Montalegre. Foram muitos anos de esforço e dedicação a este evento que melhorou a cada edição e que tem potencial para ser ainda melhor.

É assim com naturalidade que continuamos ao lado do município de Montalegre, subscrevendo as palavras do seu presidente, Orlando Alves, e dando o nosso apoio, tal como temos sempre feito até aqui. Montalegre, o norte do país e Portugal precisam que estes eventos se mantenham por cá, pois além de mostrarem a nossa capacidade organizativa (muitas vezes menosprezada), permitem que o interior seja relembrado pelos melhores motivos e que ganhe um dinamismo que sem este tipo de eventos se vai desvanecendo.

Aguardamos pacientemente o desenrolar dos acontecimentos, esperando que no final possamos voltar a sorrir. Temos orgulho no trabalho feito e vontade de fazer mais. Cabe aos órgãos responsáveis tomar as decisões necessárias. Mais uma vez sublinhamos o nosso incondicional apoio ao Município de Montalegre que saberá encontrar as respostas adequadas a esta situação.”

 

Resta agora perceber o que acontecerá no futuro. Pelo que se sabe, a porta para o regresso não está fechada, mas resta ver como decorrem as conversções que terão inevitavelmente de acontecer. Afinal há um novo acordo assinado por mais cinco anos, há investimentos feitos e há muito trabalho posto em prol de um campeonato que descartou o palco que recebeu a primeira prova do WRX.  O município quer ser ressarcido (e bem) dos prejuizos que a decisão trouxe e se houver um extremar de posições as portas que estão agora abertas poderão fechar-se.

Em quatro anos o WRX cresceu de forma brutal e tornou-se numa das competições mais interessantes de seguir. No espaço de meses viu duas marcas e uma equipa com pergaminhos na competição, abdicarem da participação e alterou o calendário, substituindo pistas com tradição e história por traçados adaptados em circuitos fechados. É o equivalente de tirar Spa ou Suzuka da F1, Monte Carlo ou o rali da Grã Bretanha do calendário dos respectivos campeonatos.

Infelizmente esta história já é repetida. Por muito que façamos bem e que tenhamos organizações de top mundial, não podemos nunca ter este tipo de eventos como garantidos pois se chegam os Senhores do Bolsos Fundos podemos ficar a ver navios. Resta dar os parabéns a todos os que trabalharam para o WRX. A vossa tarefa foi cumprida com sucesso. Qual será o futuro? O regresso de um WRX fragilizado e se calhar a caminho do fim, a vinda de outra competição ( o Global Rallycross está de regresso e agora que conquistar a Europa), ou outras oportunidades que possam surgir. A aposta no desporto motorizado é acertada e dá dinamismo às zonas mais interiores do país. Este incidente não poderá ser nunca motivo de desmoralização. Apenas um precalço que poderá abrir novos horizontes. Esperemos é que não seja o fim do sonho que encheu bancadas ano após ano, mesmo com chuva, frio, neve, ou calor abrasador. Este tipo de paixão não se encontra em qualquer lado. E enquanto os promotores não entenderem isso, o desporto motorizado nunca terá a dimensão que pode ter.

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