Sportclasse – O Templo da Porsche

Dizem que na vida devemos ir a sítios especiais nem que seja apenas uma vez. Os católicos devem ir ao Vaticano, os muçulmanos devem ir a Meca e os budistas aos templos sagrados no Nepal. Ou se não é religioso também há sítios aonde ir, como por exemplo, as Pirâmides de Gizé, as Cataratas do Niágara ou até mesmo ao Machu Picchu.

E nós Petrolheads, onde havemos de ir?! Pois bem, aqui bem perto de nós, há um pedaço de céu na terra, com que todos os apaixonados por automóveis deviam sonhar e visitar uma vez na vida. Esse paraíso chama-se Sportclasse e é um autêntico templo da Porsche.

Numa ida a Lisboa para visitar os sogros (há que dar um bocadinho de graxa de tempos a tempos) lembrei-me que o tempo passava melhor se visitasse as instalações da Sportclasse. Depois de uma troca de mensagens com os responsáveis, a visita aconteceu mesmo.

Passado

Para contar a história da Sportclasse é preciso voltar atrás no tempo e contar um pouco da vida de Américo Nunes, pois foi por ele que tudo começou. Américo da Silva Nunes, nasceu no concelho de Góis em 1928 numa família humilde e trabalhadora. Como era o hábito daquela altura, mal se completava a idade mínima dos 11 anos, era preciso meter mãos à obra e começar a trabalhar, pois os tempos não eram fáceis. Américo Nunes começou então na Garagem Modelo, em Alcântara, a lavar peças de motores. Depois de mudar para outras oficinas, o seu brio e talento no trabalho foi-se notando, acabando mesmo por conseguir uma vaga na Guérin, que na época era a importadora da Porsche e de outras marcas para o nosso país.

Com o passar dos anos, Américo Nunes tornou-se num dos melhores bate-chapas de Portugal. O “Martelinho de Ouro” como passou a ser conhecido na empresa, depressa chegou a chefe de oficina e a liderar outras sucursais da Guérin espalhadas por Lisboa. Com o seu gosto por automóveis, começou por participar em alguns ralis organizados pela a empresa, com o seu carro do dia-a-dia, um VW “Carocha” Split Window, que com o seu dom para a mecânica, tinha um motor mais potente e bem “afinadinho”. Mas o seu coração batia forte pela Porsche e um dia mais tarde, depois de muito sonhar, a oportunidade apareceu. Na oficina onde trabalhava, apareceu um Porsche 356 pré-A batido, de um cliente muito importante da empresa. Depois de alguma conversa “direta ao coração” dessa pessoa, Américo Nunes conseguiu convencê-lo a vender-lhe o 356 e a poder pagá-lo às prestações.

Nas horas vagas, foi arranjando o carro e trazendo-o de novo à vida. Como a dedicação e o amor na reconstrução era tanto, o antigo dono do 356 ficou tão impressionado com isso, que acabou por lhe oferecer o carro e ainda a primeira prestação que já tinha sido paga. Depois de o usar durante bastante tempo como carro de dia-a-dia, Américo Nunes trocou-o por um 356 B Coupé Karmann, equipado com um motor 1.6L de cilindrada. E foi a partir daí que começou a participar em ralis de forma mais “profissional” e assídua.

No entanto, a ideia dos ralis começou por brincadeira numa esplanada. Uma tarde, entre umas cervejas e uns camarões, numa esplanada lisboeta, com o seu amigo Saraiva, surgiu a ideia de irem fazer um rali, para experimentar o novo Porsche nessas andanças. E então foi a partir daí, depois de uma brincadeira, que no dia 25 de março de 1962, Américo Nunes e o seu amigo, começaram a participar em ralis e a vencer. Sempre com o seu carro de dia-a-dia. Foram 20 anos de carreira, tanto nos ralis como na velocidade, sempre com carros da marca de Estugarda, com muitas vitórias, nove títulos de campeão e um legado que nunca será esquecido.

Presente

Como filho de peixe sabe nadar, Jorge Nunes, filho de Américo Nunes, nasceu e cresceu rodeado pelos carros, em especial por máquinas da Porsche. Assim nasceu e cresceu também a sua paixão pela mecânica, e depois de trabalhar muito tempo nessa área, decidiu abrir a Sportclasse, em 1994. Passados 25 anos, a Sportclasse continua de pedra e cal, a trazer de volta à vida os modelos mais icónicos da marca de Estugarda. Mas desengane-se quem pensa que a Sportclasse é apenas uma simples oficina de restauro de carros antigos.

Trata-se de um “templo” da Porsche, onde antigos e novos são todos bem vindos, pois a Sportclasse está dividida em duas partes: De um lado, há o restauro ao detalhe e a manutenção dos modelos antigos, dos refrigerados a ar e depois do outro lado temos os modelos novos, onde se faz a revisão oficial ou onde se pode acrescentar um novo detalhe e personalizar a gosto.

Futuro

E o futuro está já assegurado, pois a Sportclasse conta agora com André Nunes ao leme no departamento dos clássicos. O neto de Américo Nunes, a terceira geração da família quer manter e aumentar o negócio. Como o pai, também ele nasceu, cresceu e foi-lhe passado a paixão pela a Porsche. E foi o André Nunes que abriu a porta deste pedaço de céu na terra, ao Chicane Motores.

Estava um dia meio “chocho”, cinzento e enublado, parecia um dia de outono, embora os calendários insistissem em dizer que é primavera, e para completar isso, ainda tive que atravessar o caótico trânsito de Lisboa, uma terapia ímpar, recheada de respirações fundas, frequentes buzinadelas e algum vernáculo à mistura. Mas assim que entrei pela apertada entrada do nº 612 da Rua Maria Pia, tudo ficou para trás e a alegria encheu-me a alma e o coração. Parecia uma criança numa loja de doces!! E que “doces” que há na Sportclasse!

Depois das apresentações feitas, fomos até ao escritório e devo dizer que terá sido o melhor escritório que já vi! Um espaço que todos nós, petrolheads, gostávamos de ter nas nossas casas (isto claro com o necessário e indispensável aval das nossas mulheres, algo improvável neste caso!!).

Com um ar “vintage”, repleto de fotos dos feitos e dos carros de Américo Nunes. As prateleiras dos armários contam com muitos “pedaços” de história, como peças, taças, capacetes e recordações dos tempos antigos do seu avô. E ao centro da sala, nada mais, nada menos, que um 911 da geração 991, na versão comemorativa 50 Jahre. E para completar o ramalhete, ainda temos motas clássicas e uma antiga máquina de pinball com o tema da Porsche, claro está!!

Depois de contemplar tão belas relíquias, que estavam ali paradas à entrada, o André começou a mostrar-me como se processa o restauro de um carro. A máquina chega às instalações da Sportclasse, e é feita uma primeira avaliação de tudo o que vai ser necessário fazer, para trazer de volta à vida o Porsche. Depois a carcaça vai a um jato para decapar, removendo assim toda a ferrugem, enchimentos e outras “barbaridades” que tenham sido feitas ao longo dos anos. A seguir a carroçaria volta e toda a chapa começa a ser rectificada, para que a silhueta volte à sua gloriosa forma original. Todo o processo é feito à mão, por mestres especializados que conhecem todos os segredos da chapa dos Porsche. São autênticos artesãos de alta costura!

Depois da pintura, é pesquisado na Porsche, todas as “specs” desse carro em específico. Porque a ideia é restaurá-lo como ele saiu da fábrica há muitos anos atrás. Porque a perfeição e o rigor são palavras chaves nesta casa. Tudo é montado como “manda a lei” e com todas as peças originais.

E o resultado está à vista. Tive a oportunidade de ver alguns modelos já na fase final de afinações e testes, antes de serem entregues aos sortudos donos que os possuem (nesta fase a inveja saudável torna-se difícil de disfarçar), e o resultado é impressionante.

O que começa como uma carroçaria cheia de buracos, que o tempo e o pouco cuidado maltratou, em alguns casos com a sentença lida de definhar em qualquer sucata, ganha numa nova vida e parece que saiu da linha de montagem da Porsche. Todo este processo, feito de uma forma muito meticulosa, demora normalmente cerca de 8/9 meses. Tudo depende do estado da carroçaria e do tempo que demora encontrar as peças originais para se começar o processo de restauro. Todo este trabalho tem um custo, que não é para todos os bolsos, podendo chegar aos 80/100 mil euros. Mas já vimos obras de arte serem vendidas por bem mais e é algo semelhante que falamos aqui.

Por fim, o André mostrou-me os carros mais usados pelo o seu avô. Temos o 911 2.4S de 1972, com a decoração usada no Rali Rota do Sol em 1978, e que é o meu favorito. O ronco do flat six provoca arrepios! Este carro venceu e deu espectáculo em dezenas de ralis no nosso país. Depois temos o fantástico 906 Carrera 6 de 1966, que é sem dúvida a jóia da coroa da família Nunes. Nele Américo Nunes venceu o título de velocidade no ano de 1972. Passou também duas vezes pelo o “nosso” Circuito de Vila Real. Que sonho deve ter sido ver este magnífico Porsche de chassis tubular, com uma carroçaria em fibra de vidro a pesar apenas 580 kg, com o seu motor de 210 cv a fazer 8.000 rpm a descer Mateus!!

Há ainda o 935 A4 “Silhoulette Alméras” que participou em várias provas do campeonato nacional de montanha e que era dos irmãos Alméras. Segundo consta foi o vencedor da Rampa da Serra da Estrela em 1978 e segundo classificado na mesma prova em 1979 com Jean-Marie Alméras ao volante. Já o 911 2.0S de 1967 com que Américo Nunes venceu o campeonato de ralis em 1968 está ainda por restaurar, mas com uma patina invejável para a sua idade. Este carro é um dos mais vitoriosos nos ralis do nosso país. A ideia de André Nunes é restaurá-lo e trazê-lo de volta à estrada. Se tudo correr bem, este ano poderá ser a sua vez de “ir à faca”. Uma das muitas ideias de André Nunes é colocar os carros que eram do seu avô a competir de novo em algumas provas, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Teremos todos que aguardar e esperar que tal aconteça, pois seria extraordinário voltar a ver estes carros com tanta história de volta ao lugar onde pertencem. Mas uma coisa que aprendi nesta casa, é que não se baixa os braços e que tudo é possível de acontecer.

Havia ainda muito mais para contar, mas há que guardar alguns segredos para nós também. Como puderam ver, no nosso país também se trabalha com perfeição, minúcia e…classe. Mais ainda num espaço repleto de história, especialmente do “responsável” por toda esta paixão… Américo Nunes.

Uma pessoa humilde que subiu na vida com muito trabalho e sacrifício, com o seu coração a pertencer sempre à Porsche, e que se tornou num dos grandes pilotos portugueses nas décadas de 60 e 70. Nunca ninguém se vai esquecer dos seus feitos, ele que discutia as vitórias ao segundo nos ralis com pilotos 20/30 anos mais novos e com carros muito mais rápidos e evoluídos que os seus. Vencer era o seu lema, quer fosse na velocidade ou nos ralis.

Acima de tudo é fantástico ver, que a sua paixão pela marca de Estugarda passou de geração em geração, e que não ficou esquecida no tempo. Mais uma prova de que a paixão pura e a dedicação podem criar algo valioso e intemporal.

Queria agradecer ao André Nunes por me ter aberto a porta da Sportclasse em nome do Chicane Motores e pela sua enorme simpatia com que me contou todos os detalhes deste lugar cheio de histórias e da sua família. Fiquei de coração cheio!! O Templo da Porsche é aqui!!

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Rua Maria Pia nº 626, Campo de Ourique, 1350-305 Lisboa

Email: porsche@sportclasse.pt / Tel: 213 839 260

 

📸 Sportclasse / Chicane Motores (Fábio Guedes)

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