Vila Real: A coragem para vencer

Em tudo na vida é preciso ter alguma coragem. Depende do desafio e da vontade de cada um. Por vezes até para sair da cama é preciso uma dose extra. Mas é preciso muita coragem para vencer. Esta frase, que poderia vir estampada em qualquer T-Shirt do Crossfit, teve no último fim de semana uma importância tremenda… porque sem coragem, não teríamos tido um dos momentos mais memoráveis do desporto motorizado.

Foi preciso coragem e determinação a todos os que trabalharam em prol das corridas desde 1931. Foi graças a eles que a história foi construída, que o nome Vila Real ganhou fama e que passou a significar muito mais do que o nome de uma cidade. Foi a coragem de todos os que trabalharam arduamente no passado, que nos permitiu viver a 50ª edição. Foi preciso também coragem para tantos anos após o fatídico acidente de 1991, voltar a a fazer este circuito.

Os tempos mudaram, as exigências triplicaram, as mentalidades evoluíram… A responsabilidade de fazer corridas numa cidade e de as transformar num evento à escala mundial faria muitos pensar duas vezes mas, felizmente, tivemos homens e mulheres que assumiram o compromisso. O CAVR, sempre em grande em tudo o que tem feito no plano desportivo, a APCIVR que desde início sabia que o “I” da sigla iria ser necessário e assumiu isso sem receios, e o município, na pessoa do Presidente Engº Rui Santos, que fez das corridas uma das suas bandeiras, talvez a maior, numa aposta que a cada ano faz mais sentido.

Foi preciso também coragem aos artistas para virem para a pista. Todos os pilotos que a cada ano dizem “sim” ao desafio, colocam de parte os receios e fazem Mateus a fundo. Essa coragem e determinação de montar projectos e fazer o melhor possível deve ser louvada, independentemente do campeonato e da categoria, embora nem sempre possamos falar de todos.

Mas permitam-me que fale de Tiago Monteiro, ele que representou a nossa bandeira da melhor forma. A história do acidente e da recuperação foi já contada várias vezes, mas o que foi vivido em privado deve ser realçado. As dores, as dúvidas, as manhãs em que para sair da cama foi preciso muito mais que apenas coragem… Monteiro provou que o ser humano consegue coisas fantásticas, se estiver determinado a ir até ao fim. A vitória de Monteiro foi marcante porque foi no local onde tinha sido feliz pela última vez (a nível desportivo), perante os seus fãs e no seu país. Talvez tenhamos ficado mais emocionados, porque naquele Honda com o nº 18, ia um pouco da valorosa alma lusitana que expulsou mouros e espanhóis e foi descobrir novos mundos, porque acreditava em algo maior… um espírito que se vai perdendo, mas que nos é relembrado por homens e mulheres com a determinação de Monteiro. E não esqueçamos  coragem que a equipa Cyan Racing usou para levantar a cabeça e continuar em competição após a trágica perda de um dos seus.

Será também necessária coragem para avaliar e repensar certos aspectos. Para exigir às entidades competentes o apoio devido, porque o interior também merece (ao cuidado do Turismo de Portugal), para pensar o futuro a médio prazo e criar mecanismos para que esta festa se possa repetir de forma estável. Temos adeptos fantásticos e pessoas com uma vontade espantosa, que dão tudo para que as corridas aconteçam. Todos os que deram o seu contributo, muito ou pouco, devem sentir-se orgulhosos do que fizeram. Mas é também tempo de pensar com calma sobre o futuro e percebermos o que é realmente o circuito e o que queremos dele.

Para nós, foi novamente um privilégio viver este evento por dentro. Falar com pilotos de classe mundial como Andy Priaux, Augusto Farfus, Gabriele Tarquini e… o grande Tiago Monteiro, sem esquecer os restantes e os pilotos dos nacionais, que nos receberam sempre de forma impecável.  Foi também um privilégio estar a falar com o Sr. João Carlos Costa, um artista do comentário desportivo, em que cada palavra e entoação tem um propósito bem definido, ao que junta um conhecimento quase assustador de todo o fenómeno do desporto motorizado. De classe mundial. E como sempre foi um gosto tremendo trabalharmos directamente com pessoas com uma qualidade a toda a prova. Também a eles o nosso obrigado, pois foi preciso coragem para nos aturar. São pequenos momentos, pequenos sorrisos e palavras de apoio em momentos mais tensos que aumentam a ligação que nos une e que faz valer a pena todo este esforço.

Vila Real foi de novo especial. Por algum motivo, Monteiro venceu cá de uma forma como poucos esperavam. Um sinal? Achamos que sim. A vitória foi tão especial quanto a história deste circuito e quanto as pessoas que para ele trabalham. Algo que merece ser repetido… por muito anos.

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